CORPO POLÍTICO NA PERFORMANCE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS_Rafael Bandeira




RAFAEL JOSÉ BANDEIRA DA PENHA
Matrícula 1104540026


CORPO POLÍTICO NA  PERFORMANCE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS


  
                                               “Quase todos são loucos aqui diz o gato de enigmático sorriso”

Vou falar uma das maiores experiências que tive durante a graduação no curso de Artes Visuais. A vivência de um ano na cidade do Rio de Janeiro como bolsista na Escola Nacional de Belas Artes da UFRJ. E como a vivência na “cidade maravilhosa” levou-me a pensar a performance de forma crítica e social. Como a pesquisa nas Artes Visuais, unida às utopias de um sonhador e as realidades de uma grande cidade que desconstroem fantasias frágeis e constroem uma fantasia para enfrentar a realidade, a fantasia como  uma armadura para guerra
.

 “Para descolonizar o corpo é necessário descolonizar o “sujeito corporizado” pelo dualismo sexual traçado em cartografias e monumentos que instituíram o sistema falocêntrico. É necessário dissolver as dicotomias de gênero, repelir as polarizações sexuais que se estabeleceram como protó- tipo dessa visão de sujeito e de corpo. Buscar alternativas para desobrigar esses sujeitos – ‘mulher’, ‘homossexual’, ‘bissexual’, ‘transsexual’ – da condição de anexos, ou seja, subjugados como o “outro”. ( MARTINS,p.6-O imaginário do corpo).





CONCEITO


Alice é uma menina inquieta, que cai em um abismo e se vê em um
universo do avesso. Questiona-se ao observar o pavor de um coelho que corre
sem parar e observa atentamente as horas. Ela parece buscar o caminho de
volta para casa, mas na realidade, tenta encontrar-se no universo confuso em
que está inserida. Características o suficientes para tecer de forma crítica um
paralelo com a realidade brasileira. Reflexos de nossos tempos atuais e de
nossas memórias conflituosas de país latino- pós colonizado.
Alice está no Brasil e ela é brasileira. Uma brasileira que vivencia suas
incoerências e tenta em determinados momentos, transpor suas inquietações
deste cotidiano adverso e paradoxal.

Alice é o exercício da liberdade; O corpo político como forma de
resistência e como um dispositivo que vai ao encontro dos conflitos do outro.
“Bicha”, “boneca”, “ridículo”, “preto sujo”... São seus adjetivos, são as
respostas da sociedade, do povo que expõe de forma direta suas intolerâncias
e seus pensamentos sobre quem já nasceu marcado. Com as marcas
históricas dos preconceitos do sistema colonizador , branco e heteronormativo.


Histórico
Alice surge em meio a “cidade maravilhosa”. Em um corpo que se insere
na cidade do Rio de Janeiro das manifestações de Julho de 2014. Pelos gritos
de mudança e que um ano depois, próximo ao seu retorno para Belém, se
viram calados pelos jogos da copa do mundo.
Alice começa suas ações, a partir da referência do capítulo 7 do livro de
Lewis Carroll , onde ela leva “O chá dos loucos” para as ruas. Como forma de
manifestação e deboche aos brasileiros iludidos pelo mundial e desacreditados
as promessas de mudança das manifestações.
Foram muitas vivências, momentos e presenças com a violência e com o
racismo escrachado. Das passagens pelas favelas e pelas ironias de uma
cidade vendida como cartão postal “maravilhoso” e de um histórico social
bastante ingrato e questionável.
Esta série é o resultado de uma vivência da Alice com o lixão de sua
cidade natal, em Belém do Pará, intitulada: “Alice e o chá através do espelho”.
Fazendo relações da sociedade brasileira com a história do autor Lewis Carroll,
partindo para uma crítica das posições sociais e individuais em que ela está
inserida como ser marginal. Encontrando um significado pessoal a partir do
simbolismo material do lixo e do lixão como um local onde habita-se o resto, o
que há de mais insignificante para um grupo social .
Alice vai aos locais aonde sua imagem chega quase a se camuflar.
Seja pela sua sensação política sobre o Brasil, seja por ser mais um menino
negro que remete aos muitos outros catadores do local , ou seja pelas cores do
vestido da personagem, que facilmente se camufla aos céus cercados por

urubus e pelos restos de lixos espalhados pelo chão.




Alice,Bairro da Lapa/
 Rio de Janeiro, 2014:


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