O
CORPO ANÔNIMO.
A
cidade flutua e cabe no meu cartão postal. Minha cidade banca de classe “A”.
Contudo, mesmo lívida, escorrega de minhas mãos; confesso que elas pesam
enormemente. Desculpem o transtorno se não me engano sobre seu peso e pesar. A cidade que trago comigo, de 400 anos, guarda um corpo-submundo
e nele cabem muitos mundos, que florescem ao anoitecer, quando todos os santos
dormem, quando os pés das igrejas se recolhem, quando o calor do asfalto esfria
e todo som das calçadas silencia ou quando a chuva faz das ruas um labirinto
deserto.
Passam-se
as chuvas noturnas, passam-se as noites, um corpo estirado no chão da cidade
reclinada, que fez ali seu abrigo sob a proteção das marquises, com uma pedra,
um peito, papelão no chão, é um rastro vago de gente, indigente, indigesto, é
um contra censo social e um abismo que separa o homem de sua condição humana,
de sua dignidade, de sua racionalidade. É também o selo do engodo, do fedor,
que se alastra na umidade. A cidade que no corpo móvel se pinta nas noites
escusas, tem muitas caras e muitas memórias, de dor, de cor, de volume e de textura.
É também um ato de violência cometido contra o olho que o vê. Um corpo,
inchado, acomodado encima de um papelão, dormindo ao meio dia, embalado por um
coma alcoólico, é uma afronta para quem escolheu viver uma realidade melhor, a
quem mereceu seu “status quo” de sujeito bem sucedido, que se destinou a vencer
na vida. É a sentença infalível de uma justiça social do “salva-se quem puder”
ou de uma justiça divina que presenteia os bons, os escolhidos, com base em uma
teologia da prosperidade e acomete os maus ao abandono, a privação.
O
corpo sujo, que se arrasta delirante, surtado, drogado, denuncia que minha
cidade não sabe falar de miséria, denuncia que ela finge não olhar e em todo
lirismo que se aguça, na fome, na cocaína, no álcool, na cola, na amônia, tem
um pouco do cidadão de bem, que convulsiona ao deparar-se com esse modelo de
desumanidade. O corpo passageiro, efêmero, o “utópico” é uma espécie de
anti-herói da resistência, de meia dúzia de poemas e de orações para são
Lázaro. É também um “cínico” que nos sorri como se estivesse latindo, pois ele
mesmo é seu cão ao revirar o lixo. Ao ante sujeito no pé da calçada, o
anonimato é sua identidade, seu corpo é sua casa, seu universo, seu templo,
cuja parede, é a pele de uma realidade mascarada como purgatório, que é
induzido pelo falso livramento e orações daqueles que elevam as mãos e se veem
livres de tal desgraça. Ai pode-se perceber um campo minado, onde todas as
estratificações da sociedade estão presentes na constituição deste sujeito, mas
que acreditam ou desejam desmedidamente, que este não faça parte de si e por
esta razão, a este sujeito animalizado, o animal revirando lixo da poesia moderna,
o Estado, a civilização lhe escapa e nela é um estrangeiro, é um bárbaro. O corpo
anônimo é uma indefinição inconclusa sob si. Sem nome, sem moldes, sem molduras,
sem modelos, sem diâmetro. Um ente familiarmente estranho, de uma cidade amazonicamente
francesa, distante da boemia de Baudelaire.
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