Por: Amanda Barros - 201204540002
Entrei na universidade aos 17 anos... Uma cabeça de vento... E com o tempo percebi que isso é bom, significa que tem alguma coisa soprando lá dentro, então não está completamente vazio ali, ruim mesmo é esse vazio, pois nem o eco do que se diz ressoa, já que no vácuo, o som não se propaga. Sei que alguns parentes acharam um desperdício que uma nota alta no vestibular fosse me levar para Artes, mas 17 anos, na concepção alheia, é uma idade permissível para fazer bobagens. “Tá nova ainda...”. Mas acho que essas pessoas estão ainda frustradas agora, por eu nunca me arrepender desta escolha e pela possibilidade de repeti-la em quantas vidas vierem depois desta, se houver alguma... E digo isso porque a maioria das pessoas considera que a felicidade é proporcional a quantidade de dinheiro que se tem, e sinceramente não é, porque isso é uma cultura de capital instaurada na sociedade como um câncer, que só aumenta. Quando criança passei dois anos em Parintins, no Amazonas, porque era a única chance de ter minha família reunida novamente, tivemos que recomeçar do zero. Lembro que na casa em que alugamos havia somente uma cama, um fogão de duas bocas, uma mesa que estava jogada no quintal, um isopor para manter a água gelada e uma panela emprestada. Foram os melhores anos da minha vida. Não significa ver beleza na pobreza, mas feiura na ganância.
No primeiro ano de universidade eu passei no lugar certo, na hora certa. “Ei Amanda, tens vontade de trabalhar com educação?” (Sinceramente não tinha vontade nenhuma). Mas respondi: “Sim”. E comecei com meu primeiro estágio, que não tinha um contato direto com as escolas, e depois de um ano fui para o segundo que também envolvia educação. Eu conhecia várias teorias didáticas, mas eu não sabia o que fazer quando tive que entrar numa sala de aula e lidar com alunos tentando destruir tudo. Os textos sobre a educação eram lindos, verdadeiros contos de fadas, mas a realidade parecia mais um conto nórdico. E eu ali toda retraída no meio deles, com 18 anos e cara de 16, parecia mais a irmã mais velha pedindo que eles obedecessem, mas quem é que escuta a irmã mais velha?
Esse primeiro impacto com a sala de aula mudou com o tempo, minha postura pessoal se modificou, mas ainda existia a dúvida, se dar aula era realmente o que eu queria fazer. E eis que um professor da universidade surta na sala de aula e fecha a sala com três mesas atrás da porta, (isso porque a fechadura estava quebrada), no dia da avaliação final, e eu, com meu trabalho inacabado, tive a má sorte de ser a primeira a ter que apresentar a produção. Foi algo tão inesperado que não acreditei no que estava acontecendo. Recordo-me apenas de pedaços daquela cena “turma de quinta categoria”, “alunos opacos” e por fim, “vocês serão todos professores de periferia”.A frase mais ofensiva foi essa “professores de periferia”, por um motivo simples, isso nunca deveria ser uma ofensa, o que nos ofende é que um professor de uma universidade que fica em plena Belém do Pará, seja capaz de dizer isto na intenção de ofender e esteja formando, num curso de Ensino Superior, futuros professores. Não é vergonha ser uma professora de periferia, vergonha é ser professor e não se sentir pelo menos sensibilizado a mudar realidades sociais e culturais. Eu nem queria ser professora, mas agora essa será minha missão. Eu nunca recebi um pedido de desculpas, e tão pouco acredito que um processo vá resolver algo, porque isso não muda a mente de quem tentou ofender.
Existem muitos problemas nesse curso, mas os maiores deles são o ego que se instaura nesse “ser artista” e o preconceito de “ser professor”. Artistas que querem ser professores, devem passar pela formação como qualquer professor, pois a falta de metodologia, de ética e de didática são disfarces para a incompetência de poder educar. O país não precisa de servidores públicos financeiramente estáveis, precisa de pessoas que ensinem a pensar. O país precisa de professores de periferia. Essa foi a melhor formação que eu poderia ter escolhido. Os amigos que fiz. As coisas que aprendi. E até mesmo as dificuldades que enfrentei, me fizeram perceber que não basta reclamar e teorizar os problemas, pois para que a mudança aconteça, a iniciativa tem que ser nossa. A universidade precisa se movimentar. Unir-se. Respeitar-se. Só falar não vai mudar porra nenhuma. Mexa-se
Acabou sendo um texto sobre o que estava atravessado na garganta, mas... a ideia era essa.





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